sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Hollywood, Eisenstein e Primeiros Clássicos do Cinema Mexicano: 1928-1936



A proximidade de Hollywood com o México foi fator decisivo para que pudesse acontecer a integração mexicana com a indústria fílmica americana. Dolores del Rio, Ramon Novarro, Lupe Vélez e Lupita Tovar foram alguns dos atores mexicanos que caminharam lado a lado com os mais famosos artistas de Hollywood. A carência da fala no cinema superou qualquer obstáculo da língua.


A volta para o México por parte de vários ´mexicanos de Hollywood´ famosos não foi devido a um simples sentimento nacionalista dos compatriotas e, sim, pela necessidade de garantir seu futuro no mundo do cinema. O advento da sonorização trazia junto algo mais do que a possibilidade de inserir músicas nos filmes: representava o ´fim´ da carreira para muitos atores.


Além do problema de atores não possuírem uma voz em sintonia com o seu personagem cinematográfico, o principal problema dos estrangeiros que atuavam em Hollywood era a língua ou, pior das hipóteses, o sotaque. Atores e atrizes, muitas vezes interpretavam o mesmo tipo de papel dos americanos, pois o sotaque estrangeiro era algo impossível de manter sob a nova era do som.

Outra faceta do problema para as produtoras, talvez a pior, era de cunho comercial. Até então os filmes podiam ser vendidos no mundo todo sem problema nenhum, pois os subtítulos de apresentação das cenas contidos nos filmes (legendas que interrompem a ação para apresentar um diálogo ou explicação), quando chegavam ao destinatário, eram substituídos por legendas traduzidas para a língua local. Mas com a chegada do som e da fala no cinema isso tudo não seria mais possível.

Diante da problemática, Hollywood propõe a efêmera saída de realizar versões dos filmes mais importantes em vários idiomas. Assim, Hollywood produz o mesmo filme várias vezes para garantir sua presença nos mercados estrangeiros durante o período de 1928-1939, que, conforme foi passando o tempo, o resultado não era como esperado.

As versões produzidas em outras línguas não eram bem aceitas pelo público estrangeiro, pois os atores que passavam nas telas não eram aqueles que gostariam de assistir. No chamado ´cinema hispânico´ de Hollywood (na versão ao espanhol), o problema ficou mais grave em virtude da grande quantidade existente de sotaques dos atores, algo que os produtores hollywoodianos jamais levaram em conta.

Contudo, o ´cinema hispânico´ teve seu papel como campo de treinamento para atores e realizadores mexicanos que acabam se incorporando na indústria nacional a partir do filme Santa, em 1931. Exerceu ainda a função de etapa de transição de modo a evitar a demissão em massa dos atores que teriam perdido seu lugar na constelação de estrelas de Hollywood.


Indústria do Cinema Mexicano

A indústria do cinema mexicano nasce numa época de grande efervescência social, política e cultural no nosso país. A Revolução faz corte importante na história, embora seus protagonistas continuavam a ditar ainda o destino político da nação.

Em 1928, o general Plutarco Elias Calles funda o Partido Nacional Revolucionário (PNR), o embrião do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Calles permaneceu no poder durante os anos de 1928-1934, embora o México teve três presidentes no mesmo período: Pascual Ortiz Rubio, Abelardo L. Rodrigues e Emilio Portes Gil.

Com a chegada de Lazaro Cardenas ao poder, em 1934, a instabilidade política do país foi desaparecendo. Cardenas torna-se o primeiro presidente no governo por seis anos consecutivos, conforme mandato estabelecido pela Constituição de 1917.

O ambiente intelectual mexicano encontrava-se dividido entre a Revolução e o socialismo. Tanto a Revolução Russa de 1917 quanto a Revolução Mexicana deixavam expressivas marcas no pensamento de intelectuais do nosso país. O México vivia o glamour do Muralismo – movimento estético na pintura que nunca escondeu sua forte inclinação ideológica de esquerda.

Além da pintura, a literatura, a música e a fotografia são outras artes que terão importante desenvolvimento na década de 30. Silvestre Revueltas, Xavier Villaurrutia, Carlos Pellicer, Salvador Novo, Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros, José Clemente Orozco, Frida Kahlo, Maria Izquierdo, Tina Modotti, Manuel e Lola Alvarez Bravo – dentre outros artistas –, faziam parte do panorama artístico-intelectual do México Moderno. Suas obras têm a leitura da Revolução Mexicana como denominador comum.

Uma vez estabelecidas as bases para a indústria cinematográfica nacional, não é de se estranhar o rumo que toma o cinema mexicano, conseqüência desse ambiente.





Eisenstein e o Cinema Mexicano

É imprescindível destacar a influência que o cinema russo teve na produção das imagens do cinema mexicano. Resulta fácil explicar a presença de Hollywood no desenvolvimento do nosso cinema em virtude da sua aproximação geográfica e pela relevância da indústria do cinema americano. No entanto, a influência estética russa merece especial atenção.

A tendência cinematográfica construída na Rússia dos anos 20 torna-se o primeiro movimento artístico do cinema propriamente dito. Visivelmente influenciados pelas contribuições do americano Griffith, em matéria de linguagem cinematográfica, os russos criaram uma proposta ideológica através de um meio jamais utilizado: o cinema.

A contribuição dos cineastas Sergei Mikhailovich Eisenstein (1898-1948) e Vsevolod Pudovkin (1893-1953) já era reconhecida mundialmente na década de 30: A Greve (1924), O Encouraçado Potemkin (1925), Mãe (1926) e Outubro (1927) tornavam-se pedras angulares na história da arte cinematográfica.

No inicio dos anos 30, Eisenstein viajou para o México com o intuito de filmar Viva o México! (Que viva México! - 1930-32) – ambiciosa e vasta obra sobre o país. O cineasta soviético contava com o patrocínio de intelectuais americanos de esquerda e tinha passado por Hollywood, onde não havia conseguido realizar nenhum filme.

Logo mais acontece o inesperado: os patrocinadores cortam as verbas, ficam com o material filmado e o Viva o México! fica inacabado. Porém, as imagens produzidas pelo diretor russo poderão ser vistas e apreciadas em vários filmes feitos a partir delas.

A estética visual do Viva o México! irá influenciar o cinema nacional de forma marcante, mostrando na sua proposta três elementos fundamentais: a beleza da paisagem, as nuvens fotogênicas e a exaltação da figura do índio mexicano. Para Garcia Riera, tal estilo foi considerado uma derivação da pintura muralista, especialmente, aquela produzida pelo pintor Diego Rivera (1886-1957).

Assista on line neste momento ao filme-documentário Que Viva México! do cineasta russo Eisenstein. Prepare sua pipoca e um ótimo filme!



Primeiros Clássicos do Cinema Mexicano

A emergente indústria do cinema mexicano produz aproximadamente 100 filmes no período entre 1932-1936, dos quais vários deles são tidos na atualidade como clássicos do cinema nacional.

Em pouco tempo, a cinematografia mexicana conquista o gosto nacional e começa até exportar suas fitas para os países de língua espanhola. Com a filmagem do Lá no Sitio Grande (Allá en el Rancho Grande - 1936), de Fernando de Fuentes, o cinema mexicano alcançará de fato sua projeção internacional. Tito Guízar, René Cardona, Esther Fernández, Lorenzo Barcelata e Emma Roldán – entre outros – formam o elenco desta primeira edição. Uma década depois, nova versão será feita tendo como protagonista o cantor e também galã Jorge Negrete (1949).

Fernando de Fuentes realiza mais três filmes todos considerados precursores da Época de Ouro do Cinema Mexicano: Preso 13 (El prisionero 13 – 1933), Compadre Mendoça (El compadre Mendoza – 1933) e Vamos embora com o Pancho Villa (Vámonos con Pancho Villa - 1935). Esses filmes mostram o domínio da técnica americana de filmagem por parte do cineasta Fernando de Fuentes e sua incrível sobriedade no tratamento do tema Revolução para sua época. De fato, os filmes de Fuentes são os únicos produzidos, praticamente, sobre o assunto sem apologia qualquer à Revolução e sem esconder sua visão crítica ao movimento.



No ano de 1933, o russo-chileno Arcady Boytler e o mexicano Raphael J. Sevilla rodam Mulher do Porto (La mujer del puerto – 1933) – filme que consagra a personagem da prostituta dentro da história do nosso cinema. Com uma atmosfera herdada pelo expressionismo alemão, Mulher do Porto acaba surpreendendo o México da época devido à sua pesada temática, que faz alusão ao incesto, e pela sua ótima produção.

Veja outros filmes da época que merecem destaque:

Janitzio (1934) de Carlos Navarro,
Dois Monges (Dos monjes - 1934) de Juan Bustillo, e
Ouro e Redes (Oro y Redes – 1934) de Fred Zinnemann e Emilio Gomes Muriel.

Chano Urueta, Gabriel Soria, Juan Orol e Miguel Zacarias são alguns dos diretores que iniciaram a sua carreira nesses anos anteriores à Época de Ouro do cinema mexicano.

Texto: Maximiliano Maza http://cinemexicano.mty.itesm.mx/
Tradução: José Refugio Ramírez Funes
jose.ramirez@bol.com.br

Links Sugeridos:
http://www.diegorivera.com/
http://www.imdb.com/title/tt0027277/
http://www.imdb.com/title/tt0023902/
http://www.uff.br/lia/tecal/cineclube/textos/mam/mendonza.html

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