A Revolução Mexicana de 1910 teve uma importância inigualável no desenvolvimento do cinema no nosso país e, devido às circunstâncias cronológicas, foi o primeiro grande fato histórico totalmente documentado pelo cinema. Nunca antes um acontecimento de tamanha envergadura tinha sido registrado em movimento.
A Primeira Guerra Mundial, iniciada quatro anos após o conflito mexicano, foi documentada a partir do estilo imposto pelos produtores mexicanos da Revolução.
A vertente documentário-realista foi, por claras evidências, a principal manifestação do cinema mexicano da Revolução. Embora a popularização do cinema de ficção estivesse acontecendo na Europa e na América do Norte, o conflito armado no México tornou-se a principal programação nas salas de cinema nacionais até 1917.
O interesse do público por este tipo de filmes era explicado pelo alto valor noticioso contido. Cumpriam a função de confirmar e dar sentido ao conjunto de informações confusas, contraditórias e insuficientes sobre um conflito armado longo e complexo. Os filmes sobre a Revolução podem ser vistos como antecedentes distantes dos atuais telejornais.
Os cineastas da Revolução procuravam mostrar uma visão objetiva dos acontecimentos. De modo a manter a imparcialidade, os cinegrafistas filmavam ambos os lados durante os preparativos para a ação, fazendo-a convergir e, muitas vezes, o resultado final não era noticiado. Isso era feito em virtude das incertezas quanto ao desenrolar dos fatos.
Era comum que cada exército tivesse seu próprio cinegrafista. Enquanto os irmãos Alva acompanhavam às tropas de Madero, o cinegrafista Jesus H. Abitia seguia a Divisão do Norte filmando os acontecimentos sob o ponto de vista do exército de Álvaro Obregon e Venustiano Carranza. Fala-se que o Pancho Villa contava com seus próprios cinegrafistas trazidos dos Estados Unidos, que até chegou a “coreografar” a batalha de Celaiá (Celaya).
Além das diversas práticas cinematográficas, a Revolução foi um sensacional e fotogênico cenário para o cinema mexicano. Indubitavelmente, a estética gerada a partir desse conflito irá imprimir sua marca no desenvolvimento posterior da nossa cinematografia. Maior prova disso, são os filmes da chamada Época de Ouro que muito devem à Revolução em matéria de postura estética.
Ficção
Se o cinema de ficção é aquele onde são empregados atores para contar um determinado enredo, é preciso nos remeter ao ano de 1896 para achar o primeiro exemplo do cinema mexicano.
“O Duelo de Chapultepec” (Un duelo a pistola en el bosque de Chapultepec) foi filmado naquele ano pelos franceses Bernard e Veyre, baseados num fato verídico que acontece pouco antes envolvendo dois deputados no Bosque de Chapultepec (localizado na Cidade do México).
A fita provocou uma série de protestos na imprensa, pois para o público isso seria a filmagem de um fato real. A pesar de ter sido anunciado de que o filme seria a reconstrução dos fatos, o público ainda não conseguia diferenciar a realidade da ficção. A abordagem realista do cinema fazia pensar de que tudo aquilo que era capturado e mostrado diante das câmaras era verdadeiro.
A reconstrução de eventos importantes não era nenhuma novidade para a época. Edison tinha produzido uma pequena fita para o seu Kinetoscópio, que muito bem pode ter inspirado o filme de Bernard e Veyre. Provavelmente, o Pedro Esquirel and Dionécio Gonzales – Mexican Duel (1894) é pioneiro por apresentar, pela primeira vez, mexicanos em um filme: dois homens se enfrentando em duelo com faca nas mãos.
A partir daí, a imagem do mexicano violento foi estereotipada e exportada pelo cinema americano quando o assunto era o México. Foram feitas outras reconstruções famosas, a saber: o naufrágio do navio Maine em 1898 e a coroação de Eduardo VII da Inglaterra, em 1902, ambas de Méliès; e, aquela realizada por Edwin S. Porter, sobre o caso da senhora Soffel, em 1901.
No seu retorno para o México, Salvador Toscano fez uma versão curta de Dom João Tenório (Don Juan Tenorio – 1899). O filme mostra a ambivalência com a qual era vista a ficção daquela época: um documentário que registra a obra em representação teatral, mas que era ficção pelo fato de mostrar simplesmente a performance dos atores.
Em 1907, o ator Felipe de Jesús Haro realiza a primeira e ambiciosa fita de ficção rodada no México: A Independência do México (El grito de Dolores o La independencia de México). O Haro escreve o roteiro e interpreta também o papel do libertador Miguel Hidalgo. O filme foi exibido quase que obrigatoriamente todo ano na data de aniversário da independência, 15 de setembro, até o ano de 1910.
A lista de filmes de ficção dessa época inclui os seguintes títulos:
* Segunda Santa do Zelador (El san lunes del valedor o El san lunes del velador – 1906), uma comédia dirigida por Manuel Noriega;
* As Aventuras de Tip-Tip no Chapultepec (Aventuras de Tip Top en Chapultepec – 1907), um curta do Haro;
* O Terço de Amozoque (El rosario de Amozoc – 1909), primeiro filme de ficção de Enrique Rosas; e,
* O Aniversário da Morte da Sogra de Enhart (El aniversario del fallecimiento de la suegra de Enhart -1912), dos irmãos Alva, o filme de ficção mais antigo do qual ainda existem cópias. O filme é uma comédia interpretada pelos atores Vicente Enhart e Antônio Alegria, ambos comediantes do Teatro Lírico com forte influência francesa.
Pós-Revolução 1917-20

A Revolução de 1910 foi importante parêntese para a produção de filmes de ficção no México e com o término oficial do conflito (1917) ressurge essa modalidade cinematográfica, mas agora na versão de longametragem.
Ora, o período de 1917-20 é visto com o uma espécie de primeira época de ouro do cinema mexicano – evento esse que só acontecerá novamente três décadas depois. Que a melhor época do cinema mexicano mudo tenha acontecido durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto a melhor época do nosso cinema sonoro tenha ocorrido com a Segunda Grande Guerra é interessante coincidência.
Em ambos os casos, a importação de filmes teve expressiva queda, quando naturalmente diminui o número de filmes produzidos nos países em guerra.
A principal região exportadora de filmes para o México era a Europa, pois os Estados Unidos ainda não se tornara importante centro produtor cinematográfico, embora o Hollywood já mostrava sua vocação para ser a futura Meca do cinema no mundo. Além do mais, as relações froxas entre o México e os Estados Unidos, somadas à imagem estereotipada do ´mexicano bandido´ passada nos filmes americanos, provocavam certa rejeição tanto oficial quanto popular às produções do país vizinho.
Nessa nova era pós-Revolução, a França e a Itália ditam o parâmetro para a ´reinauguração´ do cinema de ficção mexicano. Logo de início estrelará no México o filme italiano Il Fuoco (O Fogo, de 1915) interpretado por Pina Menichelli – atriz que consegue alta popularidade no país e que introduz o termo ´diva´ no mundo do cinema, o qual era utilizado apenas para o teatro e a ópera.
O Fogo inaugura um estilo romântico-meloço que fez sucesso no México e que influencia o cinema de outros países como os próprios Estados Unidos. O universo das ´divas´ continha ingredientes de rápida assimilação por parte das demais cinematografias: mulheres voluptuosas, cenários ostentosos, enredos ousados e passionais.
A proposta italiana colocava uma mudança de mentalidade para a época, produto imediato da guerra. O papel da mulher se estendia para o mundo do cinema, mesmo que fosse apenas como ´objeto´ de paixões amorosas. A nova mulher – que conseguia o direito a votar – começa por aparecer na telas de cinema, logo passa a usar cabelo curto e mini-saia e mais libertaria.
Oficialmente falando, o primeiro longametragem do cinema mexicano é intitulado Luz – O Triptico da Vida Moderna (La luz, tríptico de la vida moderna - 1917). É empregado o adjetivo ´oficial´ em virtude de que poucos autores reconhecem o trabalho de Carlos Martines Arredondo e Manuel Cirerol Sansores, ambos de Iucatã (Yucatán), que tinham filmado “1810 – Oh! Libertadores do México” (1810 ó ¡los libertadores de México! – de 1916), um pouco antes e que talvez seja o primeiro longa de ficção nacional. O fato de este filme ter sido rodado na região sul do país, assim como outros deles (ex.: El amor que triunfa), faz com que fique relegado e até colocado atrás do Triptico – esse sim rodado na cidade do México.
Produzido pelo francês Max Chauvet e dirigido por J.Jamet – provável pseudônimo de Manuel da Bandeira -, o Triptico é atribuído ao cinegrafista mexicano Ezequiel Carrasco, que consegue fazer longa carreira no cinema nacional até os anos sessenta. Com um roteiro que praticamente plagiava o afanado O Fogo, o filme lança a primeira ´diva´ mexicana com estrelato nacional: a Emma Padilha.
A lista de filmes famosos desta primeira época de ouro (1917-20) inclui também:
* Defesa Própria (En defensa propia), Tigresa (La tigresa) e A Sonhadora (La soñadora), todos eles produzidos no ano de 1917 pela Companhia Asteca Films. Essa companhia, fundada pela atriz Mimi Derba e pelo cineasta Enrique Rosas, é a primeira empresa 100% mexicana de cinema. Muito provavelmente, a Derba é a primeira diretora do cinema mexicano, caso tenha dirigido de fato o Tigresa;
* Tepeiaque (Tepeyac): rodado por Fernando Sayago, o filme relaciona de forma estranha o aparecimento de Nossa Senhora de Guadalupe (Virgen de Guadalupe) com o naufrágio de um navio do século XX;
* Tabarê: de Luis Lezama, o filme mantém uma estreita relação com o enredo de filmes como Tisoque (Tizoc – 1957) – nome do índio que se apaixona pela branca ricaça; e,
* Santa: filme que mostra a vida de uma prostituta criada pelo roterista Federico Gamboa e terá sua primeira exibição na versão dirigida por Luis G. Peredo, em 1918. Em 1931, o Santa ganha nova versão que irá abrir a era do cinema sonorizado no México e projetará um dos principais arquétipos femininos do nosso cinema: o da prostituta ou garota de programa (cabaretera).
“O Carro Cinza” e os Seriados
Merecedor de especial atenção é o Carro Cinza (El automóvil gris – 1919): produzido por Enrique Rosas, é, sem dúvida, o filme mais famoso da época do cinema mudo no México. Na verdade, o filme é uma série de 12 episódios que vai contando as aventuras de importante gangue de assaltantes de jóias, que teria ficado famosa na Cidade do México, no ano de 1915.
As séries, ou ´seriados´, são as primeiras incursões do cinema americano no gosto popular mexicano. Pelos idos de 1919, a aspereza do relacionamento com o vizinho do Norte tina cedido e a conquista de mercados por parte do cinema hollywoodiano avançava pelo mundo afora.
O ´seriado´ americano mais popular era “Perigos de Paulinha” (The Perils of Pauline, 1914), que conta as aventuras de uma jovem repórter – novidade na época – que vivia arrumando encrenca por causa de sua profissão. Esse seriado proclamava o novo papel da mulher americana, além de servir como meio de lazer utilizado nas consagradas ´matinês´ cinematográficas.
Assim, o Carro Cinza abre passo ao ´seriado mexicano´ sem garantia de seguidores. Nesse tipo de fitas tinha o elemento novo e controverso de ter como fonte inspiradora os fatos que aconteciam na época. O fato original do filme mostra um general ´carrancista´ (seguidor de Carranza) que tinha sido sócio do diretor Rosas e participante ativo na formação da Asteca Films, e os personagens que aparecem na tela eram facilmente reconhecidos pelo público.
Para complicar ainda mais, o seriado tinha cenas onde misturava ficção com realidade: o fuzilamento de alguns membros da gangue não tinha sido gravado para o filme, mas era a cena original que ele mesmo teria filmado e simplesmente incluído. É desse modo mórbido que o filme teria garantizado sua popularidade junto ao público.
Carro Cinza é, entretanto, um curioso fenômeno na história do cinema mexicano e um filme que foi exibido regularmente até alguns anos atrás no cinema e na televisão, ainda que com cortes. Em 1933 foi sonorizado, e acabou perdendo parte da sua originalidade, pois os diálogos inseridos acabam ridicularizando as atuações teatrais da época e não acrescentam nada à história.
Em 1960, foi editado de modo a transformá-lo em longa, mas acaba por destruí-lo por completo. Inúmeras cenas que faziam “ponte” para as ações foram tiradas, de tal maneira que hoje o que ficou do filme é uma versão confusa do “seriado” original. “O Carro Cinza” de 1919 foi a última
filmagem do diretor Enrique Rosas, que morre no ano seguinte.
Assista neste momento on line ao filme El automóvil gris.
Texto: Maximiliano Maza http://cinemexicano.mty.itesm.mx
Tradução: José Refugio Ramírez Funes jose.ramirez@bol.com.br
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